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Seu nome é João

Sei que serei julgada por muitos, massacrada por outros. Para uns estarei me posando de vítima, para outros estarei sendo honesta, verdadeira. Mas no momento não estou me importando com nada disso.

O que me importa de fato é colocar em palavras o que a dor no meu peito e as lágrimas já não dão conta de expressar.

O vazio que sentia no meu peito há 7 anos (e que eu não sabia de onde vinha) tem nome, e se chama João.

João é meu filho. Se estivesse vivo hoje, teria 7 anos. Por que digo se estivesse vivo? Porque escolhi tomar uma pílula do dia seguinte, embora tenha a minha fé baseada no catolicismo.

Aconteceu em uma situação de muita dor (tanto física quanto emocional), depois de três garrafas de vinho e praticamente um estupro. E tudo isso para que? Para em minha cabeça (apenas) fingir que estava tudo bem, que a vida tinha continuado para mim também depois de sair de um relacionamento longo.

Não me orgulho nem um pouco dessa atitude. Sei que fui incongruente com o que acredito. E se eu tivesse o entendimento que tenho hoje da vida, das relações humanas e de sistemas familiares, minha atitude com certeza teria sido diferente.

A questão é que não vivemos de “se eu tivesse feito (ou não) isso ou aquilo”, pois não há como passar uma borracha no passado. E simplesmente escolher não lidar com o que dói pode ser um preço alto a se pagar.

Me culpo e me causa muita dor falar sobre isso? Sim, claro que sim. Mas não vou e não posso simplesmente dizer que sou apenas uma “vítima da sociedade patriarcal”, pois 50% do que ocorreu foi escolha e responsabilidade minha.

Se tenho raiva do pai do meu filho por ter me machucado? Não, não tenho. Acredito que, se todos tivessem uma educação sexual apropriada (tanto ele quanto eu), situações como essas não teriam acontecido.

Se culpo meus pais pela educação sexual que não tive ou pelos abusos que sofri na infância (que hoje tenho plena consciência destes episódios)? Obviamente que não, pois foi assim que eles aprenderam com os pais deles e sei que fizeram tudo o que podiam e doaram o melhor deles por mim.

É por essa razão que resolvi fazer diferente. É por essa razão que resolvi abrir o meu coração e minha vida privativa para que mais pessoas que tenham passado por situações semelhantes entendam que não estão sozinhas, que pode acontecer com qualquer pessoa, independente de raça, religião, posição política e status social.

Julgamos o tempo todo as pessoas ao nosso redor, falamos de boca cheia da vida alheia enquanto sentamos em nosso próprio rabo para falar do rabo alheio. E adivinhem? Eu também sentei no meu próprio rabo por 7 anos, fingindo que nada havia acontecido, enquanto me aniquilava por dentro.

Dá sim muito medo de mexer com algo que nos machuca. Dá sim muito medo de ser julgada pela família, pelos amigos, pela igreja. Mas aprendi com uma pessoa muito especial chamada Jesus Cristo que a verdade sempre liberta, que sempre há tempo para mudar se realmente quisermos.

E como eu não sou aquela pessoa “doce” que todo mundo espera, a terapeuta “boazinha de fala doce”, preciso te dizer com todas as letras que não importa o quanto de dinheiro você tenha, não importa quantas promessas de réveillon você faça, se mora no Brasil ou resolva se mudar para o outro lado do mundo, achando que tudo ficará bem. Aonde quer que você vá, suas questões mal resolvidas irão com você.

Enquanto estivermos nessa bolha de julgamento, com medo do que as outras pessoas podem pensar a nosso respeito, enquanto não expusermos a realidade dos fatos e ajudarmos uns aos outros a não repetirem nossos erros, os ciclos de abusos, violência doméstica, assassinatos, suicídios e feminicídios vão continuar acontecendo.

Por essas e muitas outras razões que não acredito em acaso. Não acredito que eu tenha feito uma mudança de carreira para trabalhar com sexualidade e com o mundo masculino por acaso.

É como se alguém me desse lentes de aumento para enxergar o óbvio. É como se eu pudesse sentir a dor de muitas outras vidas que foram igualmente ceifadas por uma guerra entre dois mundos que simplesmente não existiriam um sem o outro.

E a cada pessoa, a cada casal, a cada homem e mulher que consigo ajudar, que consigo ensinar, é como se a cura, o equilíbrio desse masculino e feminino fossem realizados no outro e em mim. É como se eu estivesse agora e de fato honrando a minha própria família de origem, a minha própria ancestralidade, a minha própria fé e sendo grata pela vida fantástica que me foi doada.

Meu filho João precisava ser visto, precisava ser acolhido e ser amado incondicionalmente por mim. E é isso que tenho feito oferecendo informações e educação sexual por meio do meu trabalho, transformando vidas, empoderando homens e mulheres, acolhendo suas histórias e dores sem julgamento, expondo minha vida e minha vulnerabilidade.

Se tem algo que aprendi com ele e com o pai dele é que todo mundo tem o direito de existir, exatamente do jeitinho que é, de ocupar o seu espaço e lugar neste mundo, de ser honrado em seu masculino e feminino.

Sendo assim, gostaria de finalizar este manifesto dizendo que eu vejo você, eu sinto sua dor, eu honro a sua ancestralidade, eu honro o masculino e o feminino que há em você.

Gratidão meu filho João! Gratidão por me ensinar a respeitar a vida, o masculino que há em mim, por ser minha maior lição de vida, e agora por ser meu combustível diário para fazer diferente e ajudar pessoas! E sim, mamãe te ama. Feliz ano novo.

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